[ES] No grafite, jovens com deficiência encontram espaço para criar

[ES] No grafite, jovens com deficiência encontram espaço para criar

Realizadas na APAE de Viana, as oficinas do projeto PCD: Pinta, Cria, Desenha exploraram letras, cores e desenhos como possibilidades de expressão individual e coletiva

Por Gustavo Domingos
Fotos: acervo da oficina

“Descobri um monte de artistas”, conta Matheus de Carvalho, conhecido no grafite como DOCE, sobre a experiência de conduzir oficinas para jovens com deficiência na Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE) de Viana, na Grande Vitória. Durante três dias, entre 14 e 16 de outubro, ele acompanhou duas turmas em atividades que começaram com o desenho de letras e chegaram à pintura coletiva de dois murais.

A proposta inicial era ensinar aos participantes a criar letras de grafite. Para isso, DOCE pediu que cada jovem escrevesse o próprio nome e escolhesse uma letra para transformar. Como referência, apresentou as letras mais grossas e as sombras presentes em fachadas de lojas, exemplos que ajudavam a introduzir os recursos da linguagem.

No segundo dia, levou um alfabeto impresso para que os participantes explorassem cores, texturas e hachuras. Alguns desenvolveram personagens inspirados em desenhos animados, e o oficineiro descobriu que parte do grupo já tinha experiência com desenho.

O processo também chamou sua atenção pela maneira como os participantes foram se envolvendo nas atividades. Segundo DOCE, alguns chegaram mais retraídos e, ao longo dos encontros, passaram a experimentar mais e interagir com os colegas.

No último dia, o grupo pintou coletivamente palavras relacionadas ao ambiente da instituição, trabalho que integrou os dois murais produzidos durante a oficina.

Em meio aos exercícios, alguns jovens diziam que não conseguiriam realizar determinada atividade. O oficineiro procurava incentivá-los a continuar, lembrando que estavam ali para aprender juntos e que poderiam modificar os desenhos durante a criação.

Ao falar sobre essa experiência, ele explica como entende a possibilidade de experimentar sem tratar cada tentativa como um resultado definitivo.

“Na arte, eu enxergo que não existe errado. Tem algumas coisas que a gente gostaria de fazer diferente, mas não é um erro. É algo que você consegue modificar, você recria, não é algo engessado, é algo muito fluido”, afirmou.

As oficinas foram destinadas a jovens a partir dos 16 anos, com prioridade para pessoas com deficiência física, sensorial, intelectual ou psicossocial e pessoas neurodivergentes, preferencialmente vinculadas a escolas públicas ou instituições da APAE.

A iniciativa integra o projeto PCD: Pinta, Cria, Desenha, que busca ampliar a participação de pessoas com deficiência na produção cultural capixaba.

Essa proposta surgiu do desejo de ampliar os espaços ocupados por pessoas com deficiência na cultura e oferecer oportunidades de participação em diferentes linguagens artísticas.

Ao explicar a origem da iniciativa, Thaís Altoé, integrante da equipe responsável pelo projeto, destaca a intenção de envolver esse público nos próprios processos de criação.

“O projeto nasceu da vontade de ver pessoas com deficiência ocupando mais espaço e sendo protagonistas na cultura capixaba. A ideia veio da sequência do PCD: Pinta, Canta e Dança, reforçando que a arte é para todo mundo”, explicou.

Thaís também ressalta que a proposta envolve a experimentação artística, para que os participantes possam desenvolver seus próprios trabalhos.

“Não queríamos apenas que o público assistisse, mas que criasse e experimentasse”, afirmou.

A escolha da APAE de Viana levou em conta a relação da instituição com os participantes e a possibilidade de realizar as atividades em um espaço que já fazia parte de suas rotinas. Segundo Thaís, a intenção era acrescentar novas experiências ao trabalho desenvolvido no local, explorando o grafite como linguagem de criação e expressão.

Durante as oficinas, os jovens puderam desenvolver desenhos próprios e, depois, participar da pintura dos murais.

Para Thaís, a possibilidade de cada pessoa encontrar sua maneira de participar faz parte do sentido da iniciativa.

“Cada um pode participar do seu jeito, no seu ritmo. Além disso, o graffiti é coletivo, todo mundo pinta junto, troca ideias e respeita as diferenças. Queremos mostrar que pessoas com deficiência também são artistas”, explicou.

A acessibilidade também foi considerada desde o planejamento do projeto. As oficinas previam circulação acessível, equipe orientada para o acolhimento e recursos de acessibilidade comunicacional conforme as necessidades identificadas entre os participantes.

Para Thaís, essa preocupação também passa pela maneira como cada pessoa é recebida e ouvida.

“A acessibilidade não foi um ‘anexo’, ela nasceu com o projeto. Mais do que estrutura, acessibilidade para a gente é escutar e respeitar a individualidade dos participantes”, afirmou.

A liberdade de encontrar um traço próprio

A experiência relatada por DOCE e a proposta apresentada por Thaís se encontram na possibilidade de cada participante desenvolver seu próprio percurso na criação artística. Para o oficineiro, a arte permite expressar ideias e sentimentos que nem sempre encontram espaço na conversa cotidiana.


 
“É uma forma de muitas vezes você dizer algo que você não consegue dizer em forma de simplesmente expressão, seja fazendo um rabisco, seja fazendo um desenho mais complexo”, explicou.

Ao avaliar os resultados das oficinas, Thaís também coloca o processo de criação no centro de sua percepção. Ela destaca a liberdade dos participantes para desenvolver os trabalhos e a reação deles ao reconhecer as próprias possibilidades artísticas.

“O mais legal é ver o processo, a liberdade de cada um em criar e a empolgação dos participantes quando veem que são artistas”, contou.

Os dois murais produzidos na APAE de Viana registram parte desse percurso. As pinturas coletivas vieram depois dos exercícios com as letras, das experiências com cores e texturas e dos desenhos individuais.

Para a equipe responsável, a expectativa é que o PCD: Pinta, Cria, Desenha tenha continuidade e inspire outras iniciativas voltadas à participação de pessoas com deficiência na cultura.

As oficinas integram o Festival PCD: Pinta, Canta e Dança, iniciativa voltada à participação de pessoas com deficiência na cultura por meio de diferentes linguagens artísticas. Para conhecer mais sobre o projeto e acompanhar novas atividades, acesse o Instagram @festival.pcd.