Por Angélica Cabral
Foto: divulgação
Há algum tempo, o mundo parece ter desaprendido a conversar. As discordâncias deixaram de ser diferenças de opinião para se transformar em barreiras. Nas redes sociais, nos debates políticos, nas mesas de família e até entre amigos, o espaço para a escuta vem sendo substituído pela necessidade de convencer. Todos falam. Poucos ouvem. E quase ninguém admite a possibilidade de estar errado.
É justamente nesse cenário que o espetáculo “Dois Papas” desembarcou no Rio de Janeiro para uma curta temporada no Teatro TotalEnergies, antigo Teatro Adolpho Bloch, trazendo uma reflexão surpreendentemente atual. Inspirada no encontro entre o Papa Bento XVI e o então cardeal Jorge Bergoglio, que se tornaria o Papa Francisco, a produção parte de um episódio histórico para discutir algo que atravessa o cotidiano de qualquer pessoa: a difícil arte de dialogar com quem pensa diferente. Por aqui, ela segue em cartaz até o dia 5 de julho, com sessões de sexta a domingo.
Vista por mais de 25 mil espectadores e vencedora do Prêmio Arcanjo de Cultura de Melhor Drama em 2025, a peça chega à capital carioca depois de apresentações bem-sucedidas em São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte e Curitiba. A direção de Munir Kanaan marca a primeira montagem internacional do texto de Anthony McCarten, também adaptado para o cinema em filme da Netflix, dirigido por Fernando Meirelles, com 4 indicações ao Oscar.
Em cena, Zécarlos Machado interpreta Bento XVI, enquanto Celso Frateschi dá vida a Bergoglio. Os dois protagonistas representam visões distintas sobre a Igreja e suas veredas. Um é associado à tradição; o outro, à renovação. Um carrega a imagem do conservadorismo; o outro, a expectativa da mudança. O encontro entre eles poderia facilmente descambar para um embate de certezas. No entanto, a dramaturgia de Anthony McCarten pega outra rota: a da escuta.
Mais do que retratar líderes religiosos, o objetivo é mostrar os homens que existem por trás das vestes papais. Homens que acumulam responsabilidades gigantescas, mas também dúvidas, medos, contradições e fragilidades. A narrativa abandona o pedestal para se aproximar da condição humana. E esse é o grande barato do espetáculo. Em vez de apresentar heróis ou antagonistas, Dois Papas oferece personagens complexos, capazes de sustentar convicções sem abrir mão da conversa.
A atualidade do tema também chamou a atenção de Zécarlos Machado durante a construção de Bento XVI. "Estamos em uma época em que cada um tem sua verdade. Mas quando se reconhece o lado humano e se tem uma boa vontade, é possível encontrar um caminho em que a humanidade, de fato, se estabeleça."
Celso Frateschi segue pela mesma direção ao destacar que a obra não se limita ao universo religioso. "São visões de mundo completamente diferentes, por mais que ambos sejam da mesma religião. Essa dramaturgia acaba falando de nós nesse exato momento em meio às discussões envolvendo polarização."
A encenação reforça essa proposta. Um cenário predominantemente branco se transforma por meio de projeções, figurinos e objetos, criando espaços que transitam entre a grandiosidade do Vaticano e os momentos mais íntimos dos personagens. O resultado é uma atmosfera que alterna tensão, humor e emoção sem perder de vista a força da palavra.
No fim das contas, Dois Papas não é uma peça sobre fé. Ou, pelo menos, não apenas sobre isso. É uma obra sobre convivência e sobre a coragem necessária para permanecer à mesa quando seria mais fácil se levantar e ir embora. Em tempos de tanto ruído e batalhas, isso já é extraordinário.
Serviço
Dois Papas
Local: Teatro TotalEnergies (antigo Teatro Adolpho Bloch)
Endereço: Rua do Russel, 804 - Glória, Rio de Janeiro - RJ.
Duração: 120 minutos.
Classificação: Livre.
Indicação: 14 anos.
Temporada: de 12 de junho de 2026 ao dia 05 de julho de 2026.
Horário: Sextas e sábados, às 20h. Domingos, às 17h.
Vendas: Bilheteria do teatro e no site do Ingresso.com
Não haverá apresentações no dia 19 de junho, por conta do jogo do Brasil na Copa do Mundo.
O espetáculo conta com comunicação em Libras e audiodescrição em todas as apresentações.