[DF] O olhar de Bia Cruz

[DF] O olhar de Bia Cruz

Entre fotografia e cinema, artista transforma experiências em imagens e defende mais espaço para pessoas com deficiência atrás das câmeras

Por Carol Boueri
Foto: Acervo Pessoal

Quando criança, Bia Cruz não precisava de grandes acontecimentos para encontrar algo que merecesse uma fotografia. Às vezes, bastavam os próprios pés. Deitada no sofá, pegava uma das câmeras que havia em casa, apontava para cima e clicava simplesmente porque aquela imagem lhe parecia bonita.

Ter uma mãe fotógrafa ajudou. As câmeras faziam parte da rotina e Bia cresceu experimentando, fotografando o que chamava sua atenção. Mais tarde, passou a levar o equipamento para eventos, registrar amigos e fazer ensaios.

Hoje, sabe que sua relação com a fotografia é, sobretudo, uma maneira particular de observar.

“A fotografia, para mim, é a arte de congelar o tempo. A partir do momento em que você dá acessibilidade para isso, você pode fazer a foto que quiser, parar o tempo que escolher. Vai ser um olhar único.”

Surda, Bia evita estabelecer uma relação automática entre a deficiência e a forma como fotografa. Para ela, cada pessoa carrega para trás da câmera a própria experiência. E ela gosta especialmente dos instantes que quase passam despercebidos: prefere fotografias espontâneas e cenas cotidianas, quando as pessoas já estão confortáveis com sua presença.

“Eu acho que o que me faz me apaixonar pela fotografia é a vontade de contemplar o mundo em seus detalhes. Meu mundo, ou os meus dois mundos.”

Imagem em movimento

Se a fotografia permite contemplar, é quando a imagem começa a se movimentar que Bia encontra sua maior paixão.

Ligada ao cinema e ao audiovisual, ela compara a fotografia a uma “escuta passiva”, que permite parar diante de uma imagem e observá-la. O vídeo seria uma “escuta ativa”, que exige acompanhar o que acontece enquanto acontece.

O documentário ganhou espaço especial nesse percurso. Não necessariamente para transformar a própria vida em assunto, mas para registrar aquilo que vê.

“Tenho uma afinidade com filmagens documentais e sobre a minha realidade. Não como algo autobiográfico, mas como eu percebo o que está na minha frente. Não necessariamente eu faço parte daquilo, mas é o que eu escolho mostrar, e isso já diz quem eu sou em parte.”

Sua experiência como pessoa com deficiência também atravessa essa criação. Bia acredita que diferentes corpos e trajetórias produzem perspectivas próprias. Como exemplo, cita o curta Big Bang, protagonizado pelo ator Giovanni Venturini, que tem nanismo. A câmera é posicionada na altura do personagem e altera a perspectiva pela qual o espectador observa quem está ao redor.

Para Bia, experiências como essa ainda são pouco comuns porque poucas pessoas com deficiência conseguem chegar a posições em que possam experimentar e criar dentro do audiovisual.

Atrás das câmeras

Essa ausência tornou-se também objeto de estudo. Bia desenvolveu o Guia de Produção Audiovisual Dirigida por Pessoas Surdas, para o qual entrevistou cineastas surdos e investigou desafios encontrados dentro das equipes.

Um deles surgiu na edição das entrevistas realizadas em Libras. Não bastava traduzir o conteúdo: era preciso compreender os movimentos da língua para saber onde fazer um corte sem interromper uma frase. Bia precisou indicar aos editores onde os trechos poderiam ser cortados.

A experiência reforçou uma questão que acompanha seu trabalho: quem está atrás da câmera também determina quais histórias serão contadas e de que maneira.

Bia estudou ainda a representação das pessoas com deficiência no cinema e aponta a permanência de estereótipos como a deficiência associada à tragédia, à superação ou ao efeito cômico. Por isso, considera necessário ampliar não apenas a presença diante das câmeras, mas também entre quem escreve, dirige e produz.

“Quando a autoria é das pessoas com deficiência, elas vão mostrar a perspectiva do mundo delas. Nossas histórias podem impactar muitas pessoas, porque elas vão ver o que a gente quer mostrar sobre a nossa vivência.”

Direito de existir

A defesa da acessibilidade também fez Bia perceber que reivindicar direitos pode ser confundido com procurar confronto.

“Eu fico muito feliz com os espaços e as equipes que entendem que a minha manifestação não é vontade de brigar. É minha vontade de existir com os mesmos direitos que todos os outros têm e acessar tudo que todo mundo pode acessar.

Hoje, trabalhando também dentro das equipes, ela reconhece as dificuldades práticas de tornar produções acessíveis e valoriza quem demonstra disposição para avançar, ainda que aos poucos.

Ao mesmo tempo, faz questão de não transformar sua experiência em representação universal da surdez. Bia não é uma pessoa surda sinalizante e diz que, mesmo sendo fluente em Libras, não pretende ocupar o lugar de quem tem a língua de sinais como primeira língua.

A convivência com outras pessoas com deficiência ampliou essa percepção. “Somos um grupo só, apesar das nossas diferenças. A gente não é muito incentivado a trocar, a conviver uns com os outros. Somos muito isolados.”

Livros, eventos, encontros e experiências profissionais deram a Bia uma bagagem que hoje influencia aquilo que deseja criar. E ideias não faltam: há projetos audiovisuais, de formação e eventos esperando investimento, equipes e parcerias.

É um caminho que começou com uma menina fotografando os próprios pés no sofá e chegou a uma artista que pensa sobre quem pode criar imagens e contar histórias.
Bia quer ser reconhecida pelo que faz, não pela deficiência. Isso, porém, não significa apagar a surdez de sua identidade.

“Minhas deficiências têm um papel fundamental em quem eu me tornei hoje. Eu não me incomodo de ser colocada como artista surda ou artista, porque eu sou. Não tenho medo de me colocar assim, porque faz parte da minha experiência de vida.”

E completa: “Eu preciso me reconhecer em outras pessoas, e outras pessoas precisam se reconhecer em mim”.