Em Tá no filó!, escritor revisita brincadeiras da infância e encontra nas pequenas histórias do cotidiano inspiração para suas crônicas
Por Carol Boueri
Fotos: Julia Tótoli e Divulgação
Giovanni Nobile tinha cerca de sete anos quando comprou, com a mãe, um time de futebol de botão numa padaria. Na embalagem vinham os jogadores, o goleiro, uma pequena trave, a bolinha e os adesivos dos times. Décadas depois, aquela brincadeira da infância se tornou assunto de um livro.
Em Tá no filó! Crônicas de futebol de botão, publicado pela Editora Patuá, o jornalista e escritor reúne histórias escritas ao longo de cinco anos, com lembranças da infância e situações do cotidiano. A obra tem 188 páginas, apresentação de Xico Sá, ilustrações e prefácio de Jeferson Carvalho e posfácio de Mauro Beting.
Natural de Santa Cruz do Rio Pardo, no interior de São Paulo, e morador de Brasília, Giovanni também mantém o Destrava Letra, projeto de incentivo à leitura que começou no Instagram e ganhou uma coluna semanal na Rádio UEL FM. Nesta entrevista à Traços, ele fala sobre o livro, a redescoberta do futebol de botão e sua relação com a literatura.

Traços – Qual é sua primeira lembrança do futebol de botão e como essa brincadeira acabou se transformando em um livro?
Giovanni Nobile – Minha primeira lembrança é de estar comprando um time de futebol de botão com a minha mãe numa padaria. Eu devia ter uns sete anos. Naquela época, os times vinham numa embalagem de plástico, com um papelão grampeado por cima. Dentro tinha uma travezinha, os botões, o goleiro, a bolinha, uma palheta e os adesivos. Eu colecionava esses times.
Sou de Santa Cruz do Rio Pardo, no interior de São Paulo, mas meus pais mudavam bastante de cidade por causa do trabalho. Morei em umas sete cidades durante a infância e a adolescência. O futebol de botão era uma brincadeira muito comum. Meus colegas da escola tinham, os amigos do prédio também. A gente morava num prédio pequeno, de seis andares, e eu ficava no térreo. Era sempre na nossa porta que batiam para chamar para brincar.
Lembro de um campeonato que fizemos lá em casa. Eu não tinha um tabuleiro próprio, então usamos uma lousa de madeira e desenhamos o campo com giz. Fizemos nosso campeonatinho ali.
Anos depois, quando estudava Jornalismo na Universidade Estadual de Londrina, fui fazer uma reportagem na Secretaria de Esportes e vi, num mural, o anúncio de um Campeonato Paranaense de Futebol de Mesa. Não sabia que existiam competições oficiais. Fui conhecer e acabei me aproximando daquele pessoal.
Foi ali que conheci Jeferson Carvalho, professor de literatura que fazia desenhos e adesivos personalizados para os times de futebol de mesa. Achei a história interessante e escrevi um perfil dele para a revista Piauí, publicado em outubro de 2010.
Depois me mudei para Brasília e perdemos contato. Durante a pandemia, em 2021, encontrei no YouTube uma transmissão de futebol de mesa. Tinha câmeras atrás dos gols, narração, uma estrutura enorme. Quando terminou, descobri que o responsável era o Jeferson!
Entrei em contato e ele contou que estava ampliando o Mundo Botonista, projeto dedicado ao futebol de mesa, e precisava de cronistas. Como sabia que eu gostava de escrever, me convidou. Comecei a colaborar em 2021. O livro nasceu desse convite.
Traços – Foram cinco anos escrevendo as crônicas. Como foi transformar esse material em livro?
Giovanni Nobile – Quando fui escrever um texto para a editora sobre a criação do livro, fiquei pensando: será que escrevi durante cinco anos ou durante 40 anos de vida? Porque estou voltando àquelas partidas da infância, quando tinha uns oito anos e nem sabia o que era uma crônica. Nem sabia direito o que era o tempo. Criança quer saber do hoje.
Comecei a publicar em 2021, mas acho que todo livro vai sendo escrito ao longo da vida. Você recupera coisas que viveu muito tempo atrás e mistura com situações atuais.
Quando decidi reunir os textos, no fim de 2025 e começo de 2026, conversei com o Jeferson. Pensei que poderia simplesmente juntar as crônicas. Ele disse que havia material, mas seria melhor fazer uma edição pensada, não apenas uma reunião de textos.
Fui reler tudo e percebi que muita coisa precisava ser reescrita. Como os textos eram publicados num portal voltado para um público específico, havia referências a jogadores, campeonatos e regras que não fariam sentido para outros leitores.
Praticamente reescrevi o livro inteiro. Algumas crônicas ficaram de fora, outras foram adaptadas. Queria que qualquer pessoa pudesse ler, mesmo sem nunca ter jogado futebol de botão. O jogo aparece em todas as crônicas, mas o livro fala sobre a vida, sobre família, música, cinema e relações humanas.
Traços – Existe alguma crônica que tenha um significado especial para você?
Giovanni Nobile – Tem algumas de que gosto muito. Uma delas se chama A geometria do acaso. Recupero uma memória da casa da minha avó, onde jogava futebol de botão no chão de taco da sala.
Era uma casa simples. Na cozinha, embaixo da pia, não tinha porta, tinha uma cortina. Atrás dela ficavam as panelas da minha avó e as caixinhas de fósforo que eu usava como goleiros.
Na crônica, conto uma jogada em que estava conduzindo a bolinha, preparando o chute, e ela bate numa imperfeição do chão de taco. Por causa daquele desvio, vai para outra direção. A partir disso, faço uma relação com os acasos da nossa vida, com situações que nos levam por caminhos que não estavam previstos.
Tem outra história que escrevi praticamente enquanto estava vivendo. Era aniversário de um amiguinho da minha filha, o Léo, e resolvi dar a ele um jogo de futebol de botão.
Fui a uma loja que vendia o tabuleiro, mas a vendedora disse que tinha acabado de vender o último. Em vez de ficar frustrado, achei aquilo maravilhoso. Eu imaginava que fosse um brinquedo raro de encontrar, mas alguém tinha acabado de comprar.
Liguei para a mãe do Léo e ela contou que a madrinha já tinha comprado um jogo, em São Paulo. Olha que interessante: tinha mais gente comprando futebol de botão para crianças!
Acabei encontrando um tabuleiro em outra loja. Enquanto esperava o vendedor embrulhar o presente, comecei a escrever a história no WhatsApp. Estava com prazo para mandar uma crônica ao Jeferson. O texto foi publicado praticamente daquele jeito e depois entrou no livro.
Também tem uma crônica em que imagino uma partida de futebol de botão entre Chico Buarque e Clarice Lispector. O livro tem um pouco de tudo.
Traços – Em tempos de celulares e jogos digitais, ainda existe espaço para o futebol de botão na infância das novas gerações?
Giovanni Nobile – Acho que existe, sim. Aquela história do presente para o amiguinho da minha filha mostra isso. Fiquei feliz em descobrir que havia gente comprando futebol de botão.
Mas tenho a sensação de que a sociedade está ficando cada vez mais individualista. E isso não é uma questão só das crianças. Os adultos também passam muito tempo com o celular na mão. Você vê crianças muito pequenas que, para comer num restaurante, precisam estar assistindo a alguma coisa numa tela.
Não sou contrário à tecnologia. Uso redes sociais, trabalho com isso e sei o quanto essas ferramentas são importantes. Também sei que elas podem fazer mal.
O futebol de botão tem uma característica interessante. Você pode brincar sozinho, inventando suas partidas, mas também pode jogar com outras pessoas. Eu fazia campeonatos com os amigos do prédio. Era uma oportunidade de convivência.
Tem outra coisa: no futebol de botão não existe juiz. Mesmo nas competições, o jogo depende muito de um acordo entre os participantes. Se você errou uma jogada e o adversário não viu, é você quem precisa reconhecer. Existe aí um exercício de ética, de respeito, de caráter.
E acho que o mais interessante é a imaginação. Quando uma criança está jogando, ela não vê apenas um botão parado no tabuleiro. Imagina o jogador dominando a bola, fazendo um lançamento, a torcida, o estádio, o chute, a comemoração.
O futebol de botão é um grande exercício de imaginação. E a gente precisa exercitar essa capacidade de imaginar, até para conseguir imaginar bons futuros.
Traços – Como foi reunir Xico Sá, Mauro Beting e Jeferson Carvalho no livro?
Giovanni Nobile – Foi uma felicidade eles terem aceitado participar. O Jeferson faz parte dessa história desde o começo. Foi ele quem me convidou para escrever as crônicas e incentivou a transformar os textos num livro.
O Mauro Beting eu conheci num evento de premiação em São Paulo. Eu estava recebendo um prêmio pelo trabalho em assessoria de imprensa e ele também estava sendo premiado na área de jornalismo esportivo. Conversamos, trocamos contatos e, quando surgiu a ideia do livro, resolvi convidá-lo.
Ele aceitou, mesmo estando envolvido na cobertura da Copa do Mundo de 2026. Mandei o original e separei algumas crônicas para facilitar a leitura. Ele foi lendo nos intervalos do trabalho.
Um dia, me mandou uma mensagem dizendo que estava acompanhando o treino da França, que o técnico tinha parado a atividade e que, enquanto Mbappé tomava água, ele estava terminando meu texto. Achei aquilo sensacional.
Depois, perguntou se poderia escrever sobre a própria relação com o futebol de botão. Claro que podia! Fez uma abertura e um fechamento sobre o livro, mas a maior parte do texto é sobre a experiência dele com o jogo.
O livro está dividido como se fosse uma partida de futebol. Tem aquecimento, primeiro tempo, show do intervalo, segundo tempo, prorrogação e terceiro tempo. Quando recebi o texto do Mauro, criei mais um capítulo, chamado Saideira, para colocá-lo no final.
O Xico Sá já acompanhava o Destrava Letra, meu perfil de dicas de leitura no Instagram. Curtia os posts, os stories. Foi muito bom poder contar com a apresentação dele.
Traços – O Destrava Letra começou no Instagram e depois ganhou uma coluna na Rádio UEL FM. Como surgiu esse projeto?
Giovanni Nobile – Surgiu de uma necessidade minha de voltar a ler. Na época da faculdade, eu tinha um blog em que publicava trabalhos acadêmicos e textos literários. Queria escrever diariamente para exercitar a escrita.
Depois me mudei para Brasília e comecei a trabalhar com assessoria de imprensa. Meu dia inteiro passou a ser dedicado à escrita, só que era uma escrita corporativa. Chegava em casa cansado e já não tinha disposição para produzir literatura. Também passei um período lendo muito pouco.
Até que, durante uma viagem de trabalho a São Paulo, entrei numa livraria na região do Copan. Havia uma equipe da TV Cultura gravando uma reportagem. A repórter pediu que eu indicasse um livro, dissesse o autor e explicasse por que recomendava aquela leitura.
Eu travei. Fazia uns oito ou nove meses que não lia nada. Consegui lembrar de um livro e participei, mas aquilo ficou na minha cabeça. Pensei: se eu tivesse um espaço para dar dicas de leitura, precisaria estar sempre lendo.
Resolvi criar um perfil no Instagram. A ideia era ter um compromisso comigo mesmo. O nome Destrava Letra veio da sensação de que minha própria escrita estava travada. Eu estava tão acostumado com a linguagem corporativa que, uma vez, fui escrever uma mensagem de aniversário para uma amiga e quase saiu um memorando.
E funcionou. Comecei a ler mais, a frequentar livrarias, a procurar livros novos. Hoje, dificilmente passo um dia sem ler, mesmo que sejam poucas páginas.
O perfil também abriu outras portas. Uma antiga colega da Universidade Estadual de Londrina, que hoje é professora lá, me convidou para participar da programação da Rádio UEL FM. Passei a fazer uma coluna semanal de dicas de leitura, também chamada Destrava Letra.
É um trabalho voluntário, mas muito interessante. Para dar dicas, preciso ler, pesquisar, conhecer autores. E acabo conversando com escritores, editoras e outras pessoas desse meio.
Traços – Para terminar: o que o menino que comprava futebol de botão na padaria com a mãe ainda pode ensinar ao escritor Giovanni Nobile?
Giovanni Nobile – Acho que um pouco de tudo. Outro dia me deparei com uma frase, não lembro de quem, que dizia mais ou menos que a infância é o terreno onde a gente vai pisar durante a vida inteira. Fiquei pensando nisso.
Muitos dos temas que a gente recupera ao longo da vida estão na infância. Dependendo da experiência de cada um, são coisas que queremos reviver ou que não queremos repetir.
Eu tive uma infância muito boa, com muita brincadeira, bicicleta, futebol, muito tempo ao ar livre. Brinquei muito. E acho que isso é muito rico para quem depois vai escrever.
Também lembro dos livros da escola. Gostei muito de A ilha perdida, da Coleção Vaga-Lume. Mas depois acabei me afastando um pouco da literatura. Voltei a sentir prazer em ler com Luis Fernando Verissimo, quando tinha uns 18 ou 19 anos e estava entrando na faculdade de Jornalismo. Gostava muito da naturalidade da escrita dele. Foi pela crônica que me reaproximei da literatura.
Quando você pergunta o que aquele menino ainda pode ensinar, acho que tem muito disso. A infância é uma fonte enorme de assuntos. A memória, a nostalgia, as experiências que a gente viveu acabam voltando. Mas também é importante dizer que esse livro só existe porque o Jeferson me convidou para escrever. Sem aquele convite, provavelmente eu não teria parado para produzir tantas crônicas sobre futebol de botão.
Serviço - Livro: Tá no filó! Crônicas de futebol de botão
Autor: Giovanni Nobile
Editora: Patuá
Páginas: 188
Apresentação: Xico Sá
Prefácio e ilustrações: Jeferson Carvalho
Posfácio: Mauro Beting
Onde encontrar: Editora Patuá e canais de venda da editora (consultar disponibilidade).