"Cavalo de Santo" e a resistência que não cabe nos mapas

"Cavalo de Santo" e a resistência que não cabe nos mapas

Nem todo Brasil cabe nos mapas mais conhecidos. Alguns territórios permanecem à margem dos holofotes, mesmo quando sua história pulsa há séculos. É justamente esse país invisibilizado que o documentário “Cavalo de Santo” traz à tona, ao revelar a força das religiões afro-brasileiras e da cultura negra no Rio Grande do Sul. O longa foi exibido no dia 13 de janeiro, em sessão fechada para convidados, no Estação Net Botafogo, marcando sua primeira apresentação no Rio de Janeiro.

Por Angélica Cabral
Fotos: Mirian Fichtner

Dirigido por Mirian Fichtner e Carlos Caramez, a produção é resultado de 15 anos de pesquisa em terreiros gaúchos e se tornou uma das principais referências para a construção do enredo que a Portela levará à Marquês de Sapucaí no Carnaval de 2026. Mais do que um apoio conceitual, o filme funciona como base simbólica e imersiva para o desfile “O mistério do Príncipe do Bará – A oração do negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande”.

Vencedor de diversos prêmios nacionais, como quatro Kikitos no Festival Internacional de Cinema de Gramado, Cavalo de Santo confronta um dos estereótipos mais cristalizados do imaginário brasileiro: o de um Rio Grande do Sul essencialmente europeu. Dados do IBGE das últimas três décadas apontam que o estado possui, proporcionalmente, o maior número de terreiros e adeptos declarados das religiões de matriz africana no país, mesmo sendo o segundo estado mais branco. O documentário está aí para dar corpo, rosto e voz à contradição histórica.

No centro desse tema está o Príncipe Custódio, figura espiritual que viveu no século XIX e teve papel fundamental na organização do Batuque, principal religião de matriz africana praticada no Sul. Reverenciado como líder religioso e símbolo de resistência, Custódio emerge tanto no filme quanto no enredo da Portela como uma presença ancestral que estruturou práticas, rituais e saberes que atravessam o tempo.

Ao levar esse tema para a Avenida, a maior campeã do Carnaval carioca sonha com mais um título, o 23º de sua trajetória, ampliando o alcance e a identidade afro-brasileira para além do eixo Rio-Bahia. A proposta é deslocar o olhar, reconhecendo que a negritude também moldou outras regiões, com suas próprias dinâmicas, lideranças e expressões. A Azul e Branco de Madureira promete articular história, religiosidade, mito, ficção e memória coletiva, sem perder o compromisso com a ancestralidade.

Quando a Águia da Portela abrir suas asas na Sapucaí em 2026 (3ª Escola de Domingo), não será apenas um desfile triunfal da Majestade do Samba: será um chamado. Um convite para que o Brasil reconheça suas raízes espalhadas pelo país, do chão vermelho do Rio Grande do Sul ao asfalto quente do Rio de Janeiro. E sob o céu aberto, ali, a partir do Setor 1, a coroa do Príncipe Custódio ressurgirá não como passado distante, mas como presença viva, lembrando que a história, assim como o sagrado, sempre encontra um jeito de tocar a todos nós.

Assista Cavalo de Santo na Globoplay.