Na mesa de um fast-food no NorteShopping, a cena parecia banal: uma cliente terminava o lanche e se levantava para jogar o copo fora. Eduarda Samontezze recolheu o objeto e, naquele instante, reconheceu o que vinha buscando:
— Eu tinha feito um caderninho com cinco perguntas, uma espécie de filtro para escolher um único material para me dedicar em meu trabalho artístico — conta a Porta-Voz da Cultura. — Passei 15 dias tentando achar esse material. Pensei em pneu, peças de carro, um monte de coisa, mas nada preenchia todas as respostas. Quando peguei o copo, ele atendia a todos os itens do questionário. Falei: “Tô achando que é o copo”. E dali já fiquei três horas sentada pensando naquilo. Soube que eram os copos.
O descartável, tão onipresente quanto invisível, tornou-se a matéria-prima de seu universo artístico. E também um espelho biográfico.
— Eu fui uma criança maltratada, sempre muito tratada como lixo — lembra Eduarda. — Na adolescência, era tida como um ser humano sem valor. Hoje eu faço do lixo o que eu quiser. Meu lixo é desejado. Mostro que o lixo é uma das coisas mais bonitas que eu posso oferecer para o mundo.
Eduarda cresceu em Cascadura, Zona Norte do Rio. Autodidata, encontrou na terapia a chave para retomar a criação:
— Ali, eu lembrei que desenhava quando era criança e gostava. Minha avó morreu quando eu tinha 10 anos, e eu divido minha vida entre antes e depois dela. Depois da morte dela, eu nunca mais desenhei, nunca mais brinquei de boneca, deixei de acreditar em Papai Noel. Muito do meu lúdico foi com ela. Quando lembrei isso na terapia, aquele sentimento voltou. Ressurgiu. Foi um caminho sem volta.
A partir daí, as camadas de rejeição se converteram em matéria-prima. A técnica com os copos não nasceu como improviso, mas como método, atravessado pela própria condição de neurodivergente.
— Quando descobri o autismo, o TDAH e a bipolaridade, eu passei por uma fase de muita tristeza — conta Eduarda. — Mas a terapia me fez ver que muito da minha arte vem do autismo, do hiperfoco. Não se chega ao estado a que eu cheguei de criação sem hiperfoco, sem muita dedicação. É como se fosse um mundo paralelo. Antes de brilhar para os outros, minha criação brilha para mim. As coisas brilham nos meus olhos.
O ato de abrir o copo em camadas — a película de fora, o papel, a película interna — é quase uma metáfora de abrir-se a si mesma.
— Eu separo tudo — explica a artista. — Às vezes deixo a logo do fast-food, porque as pessoas se impressionam quando percebem que aquilo era um copo. A delicadeza dos copos é real, mas ela está nas minhas mãos. Eu consigo tirar do copo a essência que ele tem.
A delicadeza, para ela, não é abstração: é obra, é esforço físico, é economia da sobrevivência. É o que fica evidente quando ela descreve seu processo de tratamento do material:
— Eu aproveito 100%. Aquilo que corto, uso em outras coisas. Até quando o copo está muito amassado ou sujo, eu trituro e faço uma outra obra. Não sobra nada.
Entre as obras que mais a marcaram está o quadro feito em homenagem à atriz Monah Delacy, sua professora de teatro e a quem chama de madrinha artística. Foi Monah quem primeiro a incentivou a acreditar no valor de sua produção, antes mesmo de Eduarda descobrir os copos como matéria-prima.
— Ela dizia: “Eduarda, você tem que escrever, tem que produzir” — conta a Porta-Voz da Cultura — Foi minha primeira cliente pagante. Uma vez eu levei uns cacarecos para ela, e na semana seguinte ela voltou com R$ 600. Eu falei: “Não precisa pagar”. Ela respondeu: “Precisa sim. Artista não vive de brisa”.
A lembrança desse gesto se materializou em um quadro com a imagem da madrinha. Mas foi outro quadro, o primeiro de grande porte que realizou, que a emocionou profundamente. Feito sobre uma tela de 700 copos, ele abriu um caminho novo para sua imaginação.
— Eu já sabia que ele não ia sair perfeito, porque seria o primeiro — lembra Eduarda. — Mas depois que o vi pronto, me veio uma sensação de perfeição. De possibilidade. Foi um divisor de águas na minha vida. Abriu portas na minha mente, me deu a sensação de que tudo pode ser feito.
A dimensão pública desse trabalho se cristalizou ao longo dos últimos anos. Mas a manifestação mais evidente está prestes a se realizar: uma árvore de Natal de 12 metros, feita de milhares de copos, que ela vai erguer em Cascadura.
— Eu já desprezei muito Cascadura. Hoje quero dar a ela o que nunca teve. Vai ser a primeira decoração de Natal da história da praça. Nunca houve. E será a primeira árvore pública com copos de fast-food. A estrutura de ferro mais barata que achei custava R$ 90 mil. Então eu mesma vou fazer a estrutura. Só não faço a parte da eletricidade, da iluminação, porque não quero matar ninguém — brinca Eduarda.
O riso não anula as marcas de desvalorização que atravessam sua trajetória. “Quanto mais pobre o artista, mais vulnerável”, lamenta. Diante disso, Eduarda insiste em valorizar sua produção:
— Já fui muito desqualificada como artista. Então, hoje, para ter uma obra minha mais requintada, só pagando caro. Claro que vendo marcador de página na Praça Paris, mas um quadro, uma obra maior, eu só negocio caro mesmo.
O futuro que imagina é tão ousado quanto a árvore de 12 metros. Ela tem uma peça escrita sobre sua vivência com os copos. Além disso, quer abrir uma galeria onde tudo seja feito de copo — o balcão, as prateleiras.
— E, como drag queen [outra manifestação de sua arte], quero um dia participar do réveillon do Copacabana Palace com joias feitas de copos. É audacioso? Com certeza. Mas eu acho que mereço. Acho que a minha arte merece. Os copos merecem.
Eduarda Samontezze se define em seu perfil do Instagram como “artista sem chance”. Porém, a cada copo recolhido, aberto, pintado, transformado em árvore, quadro ou objeto de decoração, ela afirma a chance que resiste como potência no que é visto muitas vezes como descartável e sem valor.
@eduarda_samontezze